Não cuidei da carcaça, agora urubus me mordem. Claro que mordem. Camarim cemitério de tecidos apodrecidos. Figurinos velhos jogados como restos, cada peça desbotada testemunha de cenas que ninguém mais lembra. Luz do espelho mal se aguenta, pisca, falha, revelando o que há por baixo de cada camada de maquiagem. Passo a base, mas sinto escamas, lá embaixo, se arrastando. Peixe se afoga quando respira ar.

Cheiro de maresia invade camarim, mas não é só sal. Tem também mofo das cortinas e roupas que já viram mil histórias sem plateia. Batom cobre rachaduras dos meus lábios, mas não resolve. Nada resolve. Controle. Sempre foi assim, manter controle. Não importa o que sinto ou o que acontece por dentro. Lá fora, esperam pelo homem, ator. Vão ter o que querem, claro. Ou pensam que vão.

Cortina abre. Palco abismo. Eles olham e acham que estão vendo alguma coisa. Acham que me veem, mas só enxergam superfície. Pobres coitados. Luz quente do palco me encharca, mas o que vem de dentro é frio. Falas saem, mecânicas, precisas, do jeito que ensaiei mil vezes. Só que, por dentro, rachado. Água sobe, invisível, se acumula nos pés, nos pulmões. Guelras pedem ar, mas ar aqui é podre. Não sentem cheiro? Claro que não.

Cena última. Paro. Palavras morrem antes de chegar à boca. Olho para plateia. Estão esperando o quê. Aplausos. Grande fim. Água escorre dos meus pés. Primeiro devagar, depois rápido. Não é suor. Começo a me afogar. Tudo molha. Palco armadilha, escorrego, caio. Cabeça bate forte no chão. Escuto estalo seco. Fico ali, deitado, e água continua vazando.

Plateia, muda. Ninguém se mexe. Talvez estejam esperando-me levantar. Talvez achem que faz parte. Mas não sabem, a risada se transformou em escama, que tudo o que foi construído agora se dissolve em água. Anéis na superfície, absorvidos por olhos embaciados, refletem falta de realismo, como se dor fosse simples truque. Enquanto luzes se apagam, algo se agita. Não sou retorno, peixe em palco submerso, entoo canção sobre expectativas afogadas. Agora, espetáculo é balé de vísceras em putrefação, onde público não aplaude, mas lambe lábios, ansioso pela próxima cena de nojo e repugnância, sem perceber que a água já sobe, levando todos juntos para um final que nunca imaginariam.

Victor Grizzo
Victor Grizzo

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.

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